A ferrovia Ferrogrão, que ligará Sinop (MT) a Miritituba (PA), traria mais impactos à natureza e às comunidades tradicionais da região do que prevê o estudo de viabilidade técnica, econômica e ambiental (EVTEA), divulgado pelo Ministério de Transportes em setembro de 2024.
De acordo com um novo parecer técnico, a Ferrogrão afetará rios do Pará e provocará desmatamento superior a 2 mil quilômetros quadrados, além de grilagem de terras no percurso da ferrovia e prejuízos às comunidades tradicionais. E o estudo do governo não menciona isso.
De acordo com o parecer, a versão atualizada no ano passado repete problemas do estudo original de 2014, não levando em conta todos os problemas que a ferrovia pode causar, principalmente na área entre os rios Xingu e Tapajós, que já sofre com outros projetos e atividades econômicas.
Sobre o desmatamento, o parecer mostra que o governo errou ao dizer que não haverá desmatamento por causa da ferrovia, com o argumento de que o aumento da produção agrícola na região da ferrovia ocorrerá apenas em áreas de pasto já degradadas. Mas o parecer mostra que houve muito desmatamento e conversão de pasto em plantação de soja na região nos últimos anos.
A conclusão faz parte de estudo apresentado recentemente por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), do Observatório do Clima (OC) e do Instituto Socioambiental (ISA).
Risco aos rios e comunidades
Com quase mil quilômetros de extensão, a Ferrogrão deve intensificar o tráfego de barcaças no Rio Tapajós, pressionando ainda mais a hidrovia e os portos de Miritituba. A navegação pode se tornar mais difícil em períodos de seca, exigindo dragagens e aumentando os impactos ambientais.
Os cientistas lembram que a seca de 2023-2024 afetou gravemente a região e acendeu um alerta para a fragilidade hídrica da Amazônia. O projeto desconsidera esses fatores e aposta em um modelo de transporte que pode se tornar insustentável com as mudanças climáticas.