A esperança de que a COP30, que ocorre em novembro em Belém, seja um marco para a ação coletiva contra a crise climática vem ganhando adesão de diferentes países e mostra que o Brasil deve ter um papel de liderança nas negociações da conferência deste ano. Essa é a visão do embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, que afirma que há uma recepção positiva em relação ao posicionamento do país apresentado em carta no mês passado.
Em entrevista à Agência Pública, Corrêa do Lago falou que, apesar do recente anúncio de retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris e dos resultados insatisfatórios das últimas COPs, há um ambiente favorável às negociações e de apoio à perspectiva da presidência brasileira da conferência do clima.A percepção vem depois da sua participação no Diálogo Climático de Petersberg, evento realizado na Alemanha com o anfitrião da COP e outros países-membro.
“Havia ali uns 40 países e visivelmente todos acompanham a prioridade do Brasil de fortalecer o multilateralismo. Todos estavam extremamente comprometidos com a evolução das negociações e da COP30. Não senti uma reticência com relação ao processo. Acho que o ambiente estava positivo. Falou-se um pouco dos Estados Unidos, mas muito menos do que se poderia esperar. Acho que foi bastante animador”, disse o embaixador sobre o Diálogo Climático de Petersberg, evento realizado na Alemanha com o anfitrião da COP e outros países-membro.
Na primeira carta da presidência, André Corrêa do Lago se refere à ideia de mutirão para ressaltar a necessidade dos países trabalharem juntos na luta contra a crise climática global. Segundo ele, a ideia foi bem acolhida, mesmo não tendo uma tradução em outro idioma.
Em um contexto de aumento de tensões entre nações e de abandono de compromissos climáticos por parte de empresas e países, o Brasil entende que convocar por uma ação coletiva é necessário para que não se perca de vista que o enfrentamento das mudanças climáticas é urgente.
“É um chamado para que o tema da mudança do clima não passe para uma posição secundária. A essência do mutirão é cada um fazer a sua parte, [assim como] o marceneiro faz o que sabe, o pedreiro faz o que sabe, quem tem um carro empresta o automóvel. Não é todo mundo fazendo a mesma coisa, mas cada um fazendo alguma coisa. Ao chamar a sociedade civil, o empresariado, os grupos sub-regionais, estamos lembrando – neste momento de crise, com os Estados Unidos saindo [do Acordo de Paris] – que não são só os países que têm que combater a mudança do clima”, destacou o embaixador.
Ainda na entrevista, ele avaliou que algumas questões podem ficar pendentes até a COP30, como a entrega das Contribuições Nacionalmente Determinada (NDC, na sigla em inglês), que são as metas de redução de emissões que deveriam ter sido apresentadas até fevereiro. Mesmo assim, Corrêa do Lago acredita que isso pode impulsionar o mutirão para que estados americanos ou empresas contribuam com medidas e propostas para diminuir as emissões no planeta.
“Eles (os países) esperam do Brasil um equilíbrio, uma ponte entre o mundo desenvolvido e o mundo em desenvolvimento. Que o Brasil lidere a COP pensando no bem dessa agenda, e não especificamente apenas no interesse, por exemplo, do mundo em desenvolvimento ou do Brasil, especificamente. O que vários me disseram também é que COP em país que tem tradição diplomática, em geral, tem melhores resultados”, pontua André Corrêa do Lago.