Por Fabrício Queiroz
Temperaturas elevadas, florestas virando savanas, secas extremas e longas, tempestades fortes, derretimento de geleiras e elevação do nível dos oceanos são algumas das consequências da crise climática. Os efeitos são graves, mas eles não afetam apenas a natureza, As mudanças causadas pela ação humana no meio ambiente e no clima representam uma séria ameaça à saúde da população.
Na Amazônia, o desmatamento é um dos principais vilões. Além de liberar grandes quantidades de carbono na atmosfera, agravando o efeito estufa, e alterar o regime de chuva, causando secas mais severas e duradouras, a devastação e a alteração dos habitats dos animais facilitam a proliferação de doenças.
“Toda vez que a gente desmata uma área e aproxima uma área urbana de uma floresta, a gente começa a estreitar relação com animais que não tínhamos contato, como roedores, morcegos, insetos e mosquitos. Isso acaba aumentando a possibilidade de contrair doenças como leishmaniose e malária porque a gente a gente está se aproximando do ambiente silvestre e ficando em contato com micróbios que são perigosos”, explica a médica infectologista Rita Medeiros, do Hospital Universitário João de Barros Barreto.
Em geral, a transição entre as estações, do verão para o inverno amazônico, por exemplo, é marcada pelo aumento do número de casos de viroses, gripes e doenças transmitidas por mosquitos, como dengue, zika e chikungunya.
Além disso, Rita Medeiros, que também é doutora em Virologia, lembra que nessa época também são comuns casos de leptospirose, hepatite A e gastroenterites, que podem se proliferar pela água suja e contaminada. E tudo isso pode piorar, já que o excesso de chuvas e eventos extremos com enchentes criam ambientes propícios para a reprodução de mosquitos e disseminação de vírus pela água.
Já nos períodos mais secos, os quadros mais relatados são de gastroenterites, mas também de doenças alérgicas ligadas à poluição e à fumaça de queimadas. O risco é maior para pessoas que possuem diagnóstico de asma brônquica ou outras doenças pulmonares em que o contato com a fumaça pode gerar crises respiratórias.
O problema é que em um cenário de mudanças climáticas a quantidade de casos desse tipo tende a aumentar e pressionar os serviços de saúde, fazendo com que muita gente doente fique sem o atendimento adequado.
Além do mais, a infectologista lembra que as alterações no clima também facilitam novos ciclos de infecções por doenças que já não eram um grande risco ou de novas doenças cujo efeito sobre o ser humano ainda é desconhecido.
“O retorno de muitas doenças infecciosas e aumento de casos de muitas das já existentes é temido e, infelizmente, já esperado essa crise climática. Nos últimos anos, nós tivemos um aumento acelerado de surgimento de novos vírus. Tivemos chikungunya, zika, covid-19, monkeypox, por exemplo, e a tendência é que esses fenômenos aumentem ainda mais se não adotarmos as medidas necessárias para cuidar do meio ambiente”, alerta Rita Medeiros, que destaca a importância de investimentos em saneamento básico para conter os casos mais comuns na Amazônia.
Algumas doenças típicas da época podem ser prevenidas com medidas simples. Confira algumas dicas:
- A água contaminada pode disseminar muitas doenças. Ferver, filtrar e usar hipoclorito de sódio ajudam a garantir água própria para o consumo e para o preparo de alimentos.
- A lavagem das mãos com água e sabão previne a contaminação de alimentos e a transmissão de infecções por vírus e bactérias.
- As gastroenterites podem ser evitadas com a higienização correta dos alimentos e o cozimento adequado.
- A vacinação anti-HAV é a principal forma de prevenção da hepatite A. O tratamento da água e higiene das mãos e dos alimentos também ajudam a evitar infecções.
- Limpar focos de água parada, limpar quintais e fazer a destinação correta do lixo são essenciais para evitar o contato com o mosquito transmissor da dengue, zika e chikungunya.