Cerca de 53 mil m³ de madeira extraída ilegalmente no Pará entre 2019 e 2024 foi parar em fábricas e comércios do Brasil e do exterior, incluindo os Estados Unidos e países da Europa, conforme apurou a Agência de Investigação Ambiental (EIA, sigla em inglês). O estudo mostra que empresas multadas ou com áreas embargadas estão envolvidas no esquema que explorou espécies nobres, como angelim-pedra, ipês e maçaranduba.
A investigação utilizou imagens de satélite para identificar áreas no Pará que servem para a extração de madeira, mas que, pelos registros fotográficos, não tinham nenhum ou quase nenhum sinal de atividade. Os dados revelam uma série de inconsistências entre as autorizações para exploração e o que de fato era retirado.
No município de Anapu, por exemplo, uma fazenda tinha autorização para extrair pouco mais de 1.000 m³ de madeira – quase 200 árvores – , mas deveria contar com a construção de uma estrada principal e vicinais, além de um galpão para estocagem. Pelas imagens de satélite, nada disso existe no local.
Já em Uruará foi identificada uma quantidade de árvores derrubadas praticamente idêntica à transportada. A autorização contemplava 1.226 m³, enquanto o transporte foi de 1.225 m³. Porém, essa situação é inviável, já que a estimativa de extração é feita com as árvores em pé. Depois de derrubadas, o volume real costuma ser de 10% a 20% menor. De acordo com a investigação, toda a madeira extraída foi comprada em Charleston, nos Estados Unidos.
Outro caso de ilegalidade foi detectado em Placas, onde a madeira de uma área embargada desde 2019 conseguiu ser processada por serrarias já multadas e depois vendida para os Estados Unidos, Bélgica, França e Dinamarca. No total, foram mais de 23 mil m³ de madeira ilegal comercializada.
Segundo a EIA, há fortes indícios de que as operações no Pará estão violando o Lacey Act e as proibições de importação da regulamentação madeireira dos Estados Unidos e da União Europeia, respectivamente.
“[A investigação] com madeireiros por todo o Pará revela uma cultura de corrupção e fraude que mancha o setor, aumentando o risco para companhias que buscam madeira da região”, diz o relatório consultado pela Folha de São Paulo.
A reportagem procurou as principais empresas identificadas na investigação e também o Instituto Brasileiro dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a Polícia Federal e a Secretaria de Meio Ambiente do Pará, mas nenhum dos órgãos esclareceu os fatos.