Dos 144 municípios do Pará, 86 estão classificados com risco muito alto para o aumento de casos de malária até o final desta década. Isso significa que há maiores chances de disseminação da doença em 59% das cidades do estado. O alerta faz parte de uma série de indicadores acompanhados pelo projeto AdaptaBrasil, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que investiga os impactos das mudanças climáticas no País.
Segundo o estudo, grande parte dos municípios do estado tem grau elevado de vulnerabilidade à doença até 2030. Entre os 86 com maior risco, por exemplo, dois deles – Viseu e Santo Antônio do Tauá – alcançaram o nível máximo que é medido em uma escala de 0 a 1.
Outros 12 municípios estão classificados com o risco alto; 37 possuem risco médio, entre eles Belém; apenas 8 aparecem com risco baixo e somente 1 – Faro, na ilha do Marajó – foi enquadrado como muito baixo.
Para os pesquisadores, é preciso que os governos locais e a sociedade civil atuem pela implementação de políticas de mitigação das mudanças climáticas que considerem as interseções entre meio ambiente e as diferentes áreas a fim de evitar os impactos previstos.
“As pessoas precisam entender que o que a gente esperava acontecer em 2030 já está acontecendo. É necessário organizarmos nosso serviço de saúde para essas novas demandas, e isso também inclui planejamento urbano”, defende Waleska Calaffa, da Universidade Federal de Minas Gerais.

Previsões para 2050
Já as previsões para o período até 2050 indicam números semelhantes. Seriam 87 com risco muito alto, 11 com risco alto, 37 com médio, 8 com baixo e com muito baixo. Em ambas as análises o cenário do estado é considerado pessimista pelo AdaptaBrasil.
De acordo com o estudo, as transformações observadas no planeta aliadas às desigualdades socioeconômicas regionais são responsáveis pela tendência de crescimento dos casos de arboviroses, que são doenças transmitidas principalmente por mosquitos, como a malária.
“Além da dengue, que já é um problema, nossas projeções mostram que a malária deve se alastrar ainda mais pela região Norte e atingir de forma intensa o litoral do Nordeste até 2050”, afirmou Cassia Lemos, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e articuladora do projeto em entrevista à BBC Brasil.
A situação tende a se tornar ainda mais critica porque, entre outros fatores, a capacidade dos sistemas se adaptarem às ameaças climáticas e oferecer serviços de suporte eficientes ainda é baixa. Também são levados em conta aspectos como os graus de vulnerabilidade, exposição e ameaça climática e o impacto de fatores diversos como umidade relativa, temperatura máxima e uso do solo.
Outras doenças
Esse cenário complexo é que justifica também a possibilidade de incidência maior de doenças infecciosas e parasitárias que tendem a surgir quando ocorre alagamentos provocados por desastres naturais ou eventos climáticos extremos. No Pará, há risco alto ou muito alto de propagação de leishmaniose tegumentar americana e de leishmaniose visceral em mais de 100 municípios ainda nesta década.
Além da saúde, o AdaptaBrasil conta com dados sobre as áreas de desastres hidrológicos, recursos hídricos, segurança alimentar, segurança energética e infraestrutura portuária, ferroviária e rodoviária. Os dados nacionais e estaduais completos podem ser consultados nesta plataforma.
Por Fabrício Queiroz